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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Com o Pé e a Cabeça na Estrada!




Falando de literatura, meu gosto pessoal vai desde biografias, até relatos de aventuras vividas por exploradores, navegadores e aventureiros.

Dentre meus heróis, tenho que citar ao menos Sir Ernest Shackleton, um inglês que no início do século XX protagonizou aventuras inesquecíveis no Pólo Sul.


 Um de seus maiores feitos, foi conseguir salvar toda sua tripulação, após o navio em que se encontravam ficar preso no gelo da Antártida.
Lembro também de Robert Falcon Scott, que perdeu a corrida ao Pólo Sul para Roald Amundsen e morreu com seus companheiros na viagem de volta do Pólo. Uma tragédia que sacudiu a Grã-Bretanha!

Sempre me interessei também por escaladas, e em 1997 topei com um livro de um tal de Jon Krakauer.
 Krakauer era um alpinista aventureiro e solitário. Ele já havia escrito para várias publicações, entre elas a National Geographic, além de ser editor da ‘Outside’.


O livro se chamava ‘No Ar Rarefeito’ (Into Thin Air) e Jon contava sobre as equipes comerciais que enfrentaram o monte Everest na temporada de escaladas de maio de 1996.


Naquele ano, duas grandes equipes comerciais escalaram o Everest no mesmo dia. Krakauer, era financiado por uma publicação (Outside) para cobrir o evento, e escalou com a equipe do neozelandês Rob Hall.
A outra equipe era liderada pelo experiente alpinista americano Scott Fischer. Ambas tinham além de guias e alpinistas tarimbados, pessoas que pagaram para escalar. Algumas com pouquíssima experiência, outras, sem o preparo físico adequado. Diga-se de passagem que o Everest é o pico mais alto do planeta, com seus 8.848 metros.
Durante o ataque final ao cume, com as duas equipes subindo juntas, além de escaladores solitários encontrados no caminho,  houve um congestionamento de alpinistas na rota para o pico, atrasando a escalada.
Se o clima continuasse bom, o que não era provável pelo atraso, devido ao grande número de escaladores, e ao adiantado da hora, talvez tudo tivesse dado certo. Mas o tempo, como sempre, era imprevisível no Everest.
 Na chamada ‘zona da morte’, acima dos 7.500 metros de altura, as duas equipes foram surpreendidas por uma tempestade. 


O dia se transformou em noite, com a visibilidade caindo para 1 metro em todas as direções e ventos fortíssimos. Alguns poucos precavidos, prevendo as dificuldades de uma escalada lenta e sentindo os efeitos da altitude, deram meia volta pouco antes da tempestade chegar. Outros, como Krakauer, foram os primeiros da fila, e conseguiram chegar ao pico e voltar para suas barracas no Cume Sul já com o tempo piorando.
Irônicamente, os dois líderes das expedições, Hall e Fischer, ficaram presos próximos ao cume do Everest. Seus corpos congelados seriam encontrados dias depois. Além deles, outros seis alpinistas perderam a vida, incluindo alguns dos clientes das equipes.

O livro de Krakauer me chamou a atenção por ele tentar achar as causas da tragédia e o que levou aquelas pessoas a tentar subir a qualquer preço ao teto do mundo, quando o mais sensato seria dar meia-volta e aguardar outra oportunidade. A atividade de equipes comerciais no Everest sofreria um duro golpe com o ocorrido em 1996.

Como Krakauer fez muito sucesso por estas paragens,a editora resolveu publicar aqui seus dois livros anteriores,‘Sobre Homens e Montanhas’(Eiger Dreams) e ‘Na Natureza Selvagem’(Into the Wild).

 
No segundo, Krakauer conta a história de um rapaz cujo corpo foi encontrado dentro de um ônibus abandonado que servia de alojamento para caçadores, numa trilha remota do Alasca, em 1992.
Descobriu-se depois que esse jovem se chamava Christopher McCandless, ex-universitário, atleta de elite e filho de empresários bem sucedidos do ramo da engenharia espacial.
Chris andava desaparecido desde que se formara na universidade. Seus pais vinham tentando localizá-lo, sem sucesso, com a ajuda  de detetives particulares.
Jon Krakauer fez uma longa pesquisa sobre a vida pregressa de McCandless, e descobriu que ele vinha vagando pelos EUA com uma mochila nas costas desde que se formara.
Ele abandonara seu carro num deserto, queimara sua carteira de identidade e os poucos trocados que tinha no bolso, além de doar toda sua poupança para entidades beneficentes.
Nas suas idas e vindas, Chris trabalhara nas mais diversas ocupações - incluindo na Macdonalds - ganhando apenas o suficiente para de novo colocar a mochila e continuar suas andanças.
Entre outras aventuras, McCandless atravessou os EUA de costa à costa, chegou ao Golfo do México num caiaque e retornou clandestinamente para seu país.

Todos que foram entrevistados por Krakauer contaram sobre um rapaz muito alegre, que adorava a sensação de liberdade, que desprezava o sistema e que desejava mais do que tudo enfrentar seu maior desafio: viver algum tempo sózinho no mato selvagem!

McCandless tinha facilidade para fazer amigos, mas era o tipo de pessoa que não suportava ficar muito tempo rodeado de gente. Após uma estadia de algumas semanas em uma cidade, ele sentia necessidade de se embrenhar em outra floresta, curtir a natureza ou simplesmente pegar carona para lugar nenhum.

Foi dessa maneira, pegando caronas, que ele chegou ao norte em abril de 1992. Fairbanks, no Alasca, foi sua última parada e derradeiro contato com a civilização.

Na cidade, aproveitou para comprar um rifle, um livro sobre plantas comestíveis, colocar 3 quilos de arroz e um par de botas - que ganhou de um amigo que lhe deu carona, -  na mochila, ao lado de seus livros de Thoreau, Jack London e outros escritores dessa mesma escola e sumiu de vista.


Chris estava com o kit mínimo para sobreviver no mato. Além de uma barraca, do rifle e de um mapa, ele não tinha mais nada. Estava totalmente por sua conta.

“Jack London é rei”, escreveu Chris num pedaço de madeira, aliás, ele agora, penetrando no seu maior desafio, não se chamava mais Chris McCandless. O nome que adotou dali em diante seria Alex Supertramp.
E, como London  diria: “A floresta escura de abetos erguia-se carrancuda de ambos os lados do rio congelado.”
Alex tomou o rumo da sinistra ‘Stampede Trail’ (Trilha do Estouro da Boiada), após vadear um rio que começava a descongelar.
Tendo chegado ainda em abril, além da neve derretendo, o caminho se encontrava lamacento e mais difícil de percorrer.
Após 3 dias de dura caminhada, ele dá de cara com um ônibus abandonado junto a uma clareira. O veículo quebrara e fora deixado lá, anos atrás, para servir de abrigo a  algum caçador que talvez só desse ás caras no verão.
Alex adorou a aparição do ônibus. Ele o chamou de ‘Ônibus Mágico’ - , quem sabe ele também não seria um fã dos Beatles? – e se instalou o mais confortavelmente que conseguiu.


Enquanto isso, Tolstoi era uma boa companhia: “Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor.”

Nas caçadas, quando tinha sorte, Alex apanhava galos silvestres e lebres. Mas a caça não era abundante. Ele complementava sua dieta com raízes de ervilha silvestre e mais adiante com batata silvestre.
No livro sobre plantas que levava, Alex estudava cuidadosamente  quais eram comestíveis.
Num dia particularmente bom, ele conseguiu caçar um alce. Infelizmente, ele não estava preparado para uma caça tão grande. Suas tentativas de defumação da carne não surtiram efeito, e ele foi obrigado a abandonar a carcaça aos lobos. Isso o deixou terrivelmente deprimido. Alex não admitia  desperdiçar a vida animal.

Nas semanas que se passaram, Alex foi em frente em direção ao oeste. Acampou, teve pouca sorte na caça e um soturno London lhe dizia:
“Um vasto silêncio reinava sobre a terra. A própria terra era uma desolação, sem vida, sem movimento, tão solitária e fria que seu espírito não era nem mesmo o da tristeza.”
Ele resolveu voltar para o ônibus!

Ao que parece, 3 meses na natureza selvagem havia sido o suficente para Alex. Ele decidiu tomar o rumo da civilização. Empacotou seus livros na mochila, e deixou para trás sua aventura. Mas ele havia esquecido um detalhe.

Quando chegou ao rio que havia atravessado em abril ele foi obrigado a parar. O degelo aumentara consideravelmente a vazão das águas. O rio calmo virara um turbilhão intransponível. Não havia como atravessar.
 Alex deve ter analisado todas as suas possibilidades e decidiu dar meia volta e seguir novamente para o ônibus. Certamente chegou a conclusão que poderia aguardar que as águas baixassem no outono e então poderia tentar novamente.

Em julho, instalado novamente no ônibus, a sua sorte começou a mudar. A caça se tornava mais escassa e ele apelava mais e mais para as plantas.


A carne com que se alimentava não era suficiente para repor suas necessidades calóricas e Alex foi ficando desnutrido.
Certo dia ele acordou sentindo-se tonto e não conseguiu sair para caçar. Seu estado físico piorou bruscamente e de maneira alarmante. Sem caça, ele necessitava mais das plantas, e esta falta de opções acabou se revelando fatal.
No livro que lera sobre as plantas comestíveis, Alex descobrira várias espécies que poderiam ser ingeridas normalmente sem causar problemas. 
Porém uma planta especificamente, a batata silvestre com que Alex havia se alimentado não era totalmente inofensiva.
Suas raízes poderiam ser aproveitadas para a alimentação, mas suas sementes continham uma substância tóxica. O livro não fazia menção às sementes, e Alex as ingeria seguidamente.
O erro teve um efeito devastador no seu corpo já debilitado pela falta de proteínas.
Alex, agora estava lutando por sua vida.
Ele escrevia bilhetes pedindo ajuda e deixava no ônibus,  para o caso de alguém aparecer, enquanto se arrastava em caçadas que não tinham resultado.
Assustado, ele voltou a se chamar Chris McCandless!

O fim veio rápido!
Em agosto ele já não conseguia manter-se  em pé.
Acomodou-se no seu ônibus mágico e leu suas últimas linhas, um poema de Robinson Jeffers:
“A morte é uma calhandra feroz; mas morrer tendo feito  
Alguma coisa mais à altura dos séculos
Do que músculo e ossos é principalmente não deixar passar fraqueza.
As montanhas são pedra morta, as pessoas
Admiram ou odeiam sua estatura, sua quietude insolente,
As montanhas não são amolecidas ou perturbadas
E os pensamentos de alguns homens mortos têm a mesma têmpera.”   

3 comentários:

Alice disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alice disse...

Parabéns pelo texto! Gostei bastante, principalmente desta última história, um resumo emocionante que não tirou a graça de ler o livro, e sim, despertou o interesse em conhecer mais detalhes da história. To acompanhando...

Eduardo Lenz de Macedo disse...

Alice, que bom que está vendo algo de bom por aqui! Abraço.