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domingo, 5 de dezembro de 2010

Monk & Trane


Acordei hoje com essa dupla em mente! Eles colaboraram em vários projetos desde 1957, com o álbum 'Thelonious Monk With John Coltrane' pela Riverside, em que pérolas do repertório de Monk desafiavam a capacidade de Trane no tenor. Clássicos como 'Ruby, My Dear', 'Trinkle, Tinkle' e 'Epistrophy' fazem parte dessa gravação histórica.
Vou ouvir daqui a pouco a famosa gravação ao vivo no Carnegie Hall em NYC, feita em 29 de novembro de 1957, com os dois acompanhados por Shadow Wilson na bateria e Ahmed Abdul-Malik no baixo. Prestem atenção em 'Evidence' e 'Blue Monk'!!

 
Deixei por último uma carta escondida na manga...'The Complete 1957 Riverside Recordings', em que vários takes inéditos nos dão a noção do quanto era árduo o trabalho dessa dupla.
Dizem que Monk tinha uma paciência inesgotável com Trane, ensinando ao amigo, nota por nota, como ele achava que seu sax deveria soar. Não há dúvidas que Coltrane aprendeu muito com Monk. 


Logo em seguida, cada um partiu para novos caminhos!
Monk, desenvolveria melodias inesquecíveis em seu piano intrincado, como em 'Monk's Dream', onde a faixa-título, 'Bright Mississippi' e 'Five Spot Blues' são belos exemplos da técnica única e inacessível para muitos de Monk.


Trane, passaria a improvisar cada vez mais, e em 1960, lançou aquele que na minha opinião é o álbum mais perto do que se poderia chamar de 'Free Jazz', mas com nuances clássicas.
'Coltrane's Sound' nos apresenta 'The Night Has a Thousand Eyes', 'Central Park West', 'Equinox'..... que seleção, irmãos!!

Bem, não tem como descrever melhor esses caras, o jeito é ouví-los!!!
Um ótimo domingo à todos, com Trane & Monk!!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A Swinging London Ampliada


  
Na década de 60, Londres era o lugar certo para se estar. 
A partir de 1964 os Beatles dominavam a cena musical, estando no auge do fenômeno conhecido como ‘beatlemania’.
Em 65 o filme ‘Help!’ era lançado nos cinemas, causando mais um grande impacto visual dos garotos de Liverpool após o antológico ‘A Hard Day’s Night’.

Novas bandas britânicas começavam a aparecer. Os Rolling Stones tinham seu maior sucesso com ‘(I Can’t Get No) Satisfaction’, e seguiriam firme no encalço do ‘fab four’.
A lista de grupos que faria sucesso também incluía ‘The Kinks’, ‘The Who’, ‘The Animals’, e os ‘Yardbirds’.
A moda fazia história na cidade e artistas performáticos, além de pintores e fotógrafos vinham de todo o planeta aproveitar a nova onda londrina.  A artista plástica Yoko Ono era uma dos que chegavam a Londres e logo estaria fazendo seus ‘hapennings’ acontecerem.

 
O ‘Moody Blues’, era outra banda que após ficar conhecida por uma canção pop como ‘Go Now’, mudaria totalmente seu rumo e faria fama com seu álbum progressivo, ‘Days of Future Passed’.
O ‘Pink Floyd’, nos bons tempos de Syd Barrett, já dava seus primeiros passos nos estúdios de Abbey Road.
Os álbuns ‘Rubber Soul’ e ‘Revolver’ dos Beatles também seriam responsáveis por experimentações nunca antes imaginadas na música pop.
O virtuose do jazz, John Coltrane, quebrando todas as regras da sonoridade conhecida, explora novos horizontes musicais e deixa seguidores fiéis na metrópole, como o saxofonista Albert Ayler, o pianista Sun Ra e o vanguardista John Cage, que logo dominariam o ‘underground’ londrino.

 
Nessa época, Roman Polanski lançava seu terceiro longa-metragem, o cult-movie ‘Cul-de-Sac’ (Armadilha do Destino) e preparava as filmagens de uma paródia sobre vampiros.
No ramo teatral peças como ‘Loot’ de Joe Orton lotam os grandes palcos da cidade.
Outra atração era a recém-inaugurada  Indica Bookshop & Gallery, fundada pelo marchand John Dunbar, pelo escritor Barry Miles e pelo cantor e futuro produtor  musical Peter Asher, da dupla Peter & Gordon.
 Este mix de galeria de arte (no porão) e de livraria (no térreo), era apoiada financeiramente por Paul McCartney e seria ponto de encontro de intelectuais no final dos anos 60.
Reza a lenda, que foi nesse porão transformado em galeria de arte, onde Lennon encontrou Yoko Ono pela primeira vez em uma exposição da artista japonesa.


Uma pessoa que estava sempre presente no restrito círculo dos Beatles e dos Stones, era o também marchand Robert Fraser, que levaria até McCartney um quadro de uma maçã, pintado por René Magritte. Esta pintura seria o ponto de partida para a criação da Apple. 

Havia também os clubes e boates famosos, como o Ad Lib Club, situado no topo de um enorme prédio em Leicester Place, o Scoth of St. James em Masons Yard, muito próximo da Indica e a Bag O’ Nails  - em que Paul e Linda Eastman se conheceram - na Carnaby Street,  por onde circulavam os astros do rock britânico, além de figurinhas como o herdeiro da fortuna Guiness, Tara Browne e a cantora e atriz Marianne Faithfull.
Nesse mesmo período, Hugh Heffner, seguindo a legalização do jogo no Reino Unido, envia o empresário Victor Lownes para supervisionar a construção do ‘Playboy Casino’ em Londres.

 
A cidade também era uma meca dos grandes estúdios de gravação. Além de Abbey Road da EMI, também havia o Trident, um dos mais modernos e o Olympic Sound Studios, onde os Rolling Stones fariam a maior parte de seus discos.   
  
Nesse cenário, em 1966, Michelangelo Antonioni começa a filmar ‘Blow Up’ (Depois Daquele Beijo), seu primeiro longa em língua inglesa.
 Sem dúvida um dos filmes mais instigantes de seu tempo, ‘Blow Up’ nos conta a história de um dia na vida de um fotógrafo famoso na ‘Swinging London’. 

 
 Segundo se sabe, o personagem foi baseado no famoso fotógrafo ‘cockney’ David Bailey, que inclusive emprestaria seu estúdio para as filmagens.
O roteiro se baseou no conto ‘Las Babas Del Diablo’ de Julio Cortázar. O filme conta com atuações soberbas de Vanessa Redgrave, Sarah Miles e de David Hemmings como o protagonista principal.

 
Thomas é um fotógrafo de moda muito requisitado, mas esse seu trabalho o aborrece. Numa noite de sexta-feira ele passa a noite em um albergue para conseguir fotos impactantes de andarilhos, idosos sem teto e marginais, para um livro em que está trabalhando.
Temos a impressão de que todo o underground londrino desfila perante o fotógrafo e sua lente.
Ao sair do albergue pela manhã, ele tem um compromisso em seu estúdio com uma manequim famosa (Veruschka), que simula um ato de amor com a câmera. Sem dúvida uma das cenas mais sexy do cinema até então.


 Outras modelos aguardam pacientemente que Thomas apareça para fotografá-las, mas elas acabam tendo que ficar de olhos fechados, esperando. Enquanto isso, ele visita seu vizinho, um pintor que não sabe de onde vem a inspiração para seus quadros, e cuja esposa insatisfeita ( Sarah Miles) se insinua para Thomas.
Os diálogos são sempre reticentes, como convém a um bom filme de Antonioni, considerado o mestre da incomunicabilidade.


 Em um passeio em seu conversível equipado com rádio-amador, Thomas visita uma loja de antiguidades que deseja adquirir e acaba comprando uma hélice de avião. Ao deixar a loja, em uma agradável manhã de sábado, ele passeia em um parque bucólico, tirando fotos ao acaso, pensando no livro que precisa terminar.
Um casal namorando passeia pelo parque e Thomas fotográfa-os várias vezes. 


A mulher (Vanessa Redgrave), ao perceber que estão sendo clicados, deixa o parceiro e vai atrás de Thomas. Ela quer o filme, ele não concorda em entregá-lo, e  a mulher se afasta correndo.

 
Na tarde de sábado ele irá receber duas visitas. A da mulher fotografada que insiste em querer os negativos, e para isso tenta seduzi-lo ao som da trilha inspiradíssima de Herbie Hancock, e de duas ‘groupies’, que querem servir de modelo para Thomas.


Uma das aspirantes a modelo (Jane Birkin) protagoniza o primeiro nu frontal do cinema em uma cena de sexo à três com Thomas e sua amiga.

O fotógrafo continua curioso pelo interesse da mulher nas suas fotos e as amplia (blow up), para tentar descobrir o porquê de tanto interesse.
Após detalhada e longa análise, ele consegue distinguir uma mão segurando um revólver no meio das árvores do parque onde ele se encontrava pela manhã, e logo a seguir o corpo do homem de meia idade que estava com a mulher.

  
Thomas toma o rumo do parque já à noite e descobre o corpo do homem. Ao voltar para o centro da cidade ele localiza a mulher que queria os negativos e tenta falar com ela, mas à perde no meio da multidão.  
Seguindo o som de uma música distante, Thomas acaba entrando em uma espécie de clube onde quem toca é ninguém menos que o grupo Yardbirds.
A banda está tocando uma versão empolgada de ‘Stroll On’, presenciada por todos os tipos imagináveis de ‘malucos’ em modelitos da época.


Jeff Beck, com problemas em seu equipamento, acaba quebrando sua guitarra e a lança ao público, que finalmente acorda de seu ‘transe’ e disputa cada pedacinho do instrumento. Thomas acaba saindo com o braço da guitarra sem utilidade nenhuma, e o abandona no meio da rua.
Quando volta para sua casa-estúdio, ele descobre que ela foi arrombada. Seus negativos do suposto crime e as ampliações sumiram.
Sua vizinha aparece e ele comenta o ocorrido. Ela parece não entender e reconhece a única ampliação que sobrou como muito similar a um quadro de seu marido.
Thomas fica com dúvidas a respeito de toda a situação. O que ele realmente viu, e o que ele pensa que viu.


Finalmente, o fotógrafo decide esquecer o ocorrido. Segue para outro parque distante onde universitários simulam uma partida de tênis. Thomas interage com os estudantes, ‘ouvindo’ o som da raquete imaginária na bolinha. Quando ele vai buscar outra ‘bola perdida’ a câmera sobe e se afasta.
Nesse momento, acabam os negativos de Antonioni! 


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Rubber Soul - 45 Anos!

                                                       
                                                                   Desenho de Paulo Chagas

Rubber Soul, o álbum dos Beatles que começou uma mudança radical na música e no comportamento do Fab Four, completa 45 anos de idade neste dia 03 de Dezembro!
Sempre curti este disco como o primeiro dos grandes álbuns dos caras. Gosto muito dos anteriores, especialmente o 'With The Beatles', mas aqui eles começam a falar sério pra valer!
Deixo aqui mais um texto escrito para o 'Alto & Bom Som'!!


    Rubber Soul – Os Beatles falando sério

Em 1965, os Beatles estavam no auge do fenômeno que ficou conhecido como Beatlemania. O Fab Four continuava fazendo turnês exaustivas pelos EUA e Europa e tinha acabado de atuar em seu segundo filme, “Help!” – que teve a trilha sonora composta pelo quarteto de Liverpool.
Com tudo isso rolando, John e Paul começam a imaginar um novo tipo de música. Eles estavam cansados de compor e tocar sempre as mesmas baladinhas no estilo I wanna hold your hand. Os garotos também estavam saturados dos shows, em que mal eram ouvidos pela plateia, mais interessada em gritar. Surge, assim, a ideia de terminar com as turnês e se dedicar aos estúdios de gravação.
 Bob Dylan foi certamente uma grande influência nessa época. John, particularmente, absorvia a poesia de Dylan e a interpretava à sua maneira. As letras começariam a querer expressar outros sentimentos além de She loves you.

Rubber Soul foi o primeiro passo nesse sentido. Nele, aparecem as primeiras composições mais sérias dos Beatles – exceção feita às anteriores Help (pela letra) e Yesterday (pela melodia), gravadas também em 65 – e arranjos mais elaborados.

 
John, particularmente inspirado, oferece duas pérolas neste álbum: a confessional Nowhere Man, falando de como ele se sentia perdido apesar de todo o sucesso profissional, e a antológica In My Life, em que ele faz um ‘passeio’ nostálgico em sua mente, lembrando de tudo que deixou para trás. O tema seria ainda mais desenvolvido em Strawberry Fields Forever, com reminiscências da sua cidade natal. Estas duas não fariam feio em nenhum álbum dos Beatles.

Paul atravessava um momento complicado, profissional e sentimental.  John vinha compondo muito mais nos últimos álbuns e, inclusive, foram dele as duas músicas- título dos dois filmes da banda. Paul sentia que estava perdendo terreno para o parceiro.
Seu relacionamento com a atriz Jane Asher, que iniciara em 1963 – ele até se mudou para a casa dos pais dela – estava abalado.
Jane, uma pessoa muito independente, não abria mão de sua carreira no teatro e cinema, e o que Paul mais queria - como todo inglês do norte - era uma esposa e mãe dos seus filhos.
Pelo menos duas canções do álbum exprimem estes problemas no relacionamento dos dois: You Won’t See Me, com um belo trabalho vocal de McCartney, e I’m Looking Through You, marcada por um bonito órgão tocado por Ringo, e uma letra bem direta para Jane, reclamando que ela “não era mais a mesma.”

George Harrison, que sempre sofreu com o pouco espaço destinado às suas canções, surge com duas grandes músicas: If I Needed Someone, com uma guitarra inspirada e um arranjo originalíssimo a cargo do mestre George Martin. Think For Yourself chama a atenção pelo vigor da interpretação de George e pela marcação do baixo com fuzz de Paul.  

  
Outra composição interessante é Michelle, em que McCartney usa todo seu talento para melodias fáceis, porém inesquecíveis, e onde ele acrescenta belos versos em francês. Michelle é hoje a segunda música mais regravada por outros artistas em todos os tempos, só ficando atrás de Yesterday!
Norwegian Wood, de John, inova ao apresentar o trabalho de sitar, de Harrison, que estava estudando o instrumento de cordas indiano com Ravi Shankar e começava a se aprofundar em tudo relacionado à cultura oriental, o que viria a influenciar os Beatles no futuro próximo. John, nessa música, relata um caso extraconjugal, mas foi composta de uma maneira que sua esposa não entendesse.

A primeira canção do álbum, Drive My Car, já sugere mudanças principalmente na melodia e nos arranjos que os Beatles estavam acostumados a produzir. Os rapazes sempre curtiram muito música negra americana e da gravadora Motown. Nessa música, o baixo de Paul é inspirado na canção Respect, de Otis Redding, com um belo complemento de Harrison na guitarra. George sempre comentou que esta foi uma das poucas músicas que Paul trouxe para o estúdio sem estar com o arranjo pronto na cabeça. Assim, todos puderam dar uma pequena contribuição nessa composição de McCartney.

Ringo Starr sempre foi fã de música country e, para abrir o lado B, ele comparece com What Goes On, parceria com John e Paul, em que pode desenvolver seu talento vocal. Apesar do pouco alcance de sua voz, Ringo tinha muitos fãs e era sempre importante que ele cantasse ao menos uma música por disco.

The Word é um belo exemplo da utopia da contra-cultura vigente na época, além de ser obviamente uma referência à maconha que lhes tinha sido apresentada por Dylan. John e Paul fazem uma bela harmonia vocal.
A canção que encerra o álbum, Run For Your Life, seria uma daquelas que mais tarde – depois de conhecer Yoko - John renegaria, alegando que, naquele tempo, ele era machista. Na verdade ela soa meio deslocada neste disco. Foi a primeira a ser gravada para o álbum e não deveria ter feito parte dele.

A capa de “Rubber Soul” nos mostra uma foto dos Beatles com aparência cansada, clicada por Robert Freeman. O efeito distorcido, segundo Freeman é um reflexo das mudanças pelas quais os Beatles estavam passando no momento.
O título, de acordo com John Lennon, foi ideia de Paul e seria um trocadilho, algo como ‘Alma Inglesa’!

O álbum foi lançado em dezembro de 1965 e teve uma recepção calorosa dos fãs, apesar da sonoridade mais complexa.


“Rubber Soul” abriria as portas para novas experimentações e, a partir de 1966, os rapazes desistiriam de vez das turnês e logo depois voltariam toda sua atenção para o estúdio. Se, por um lado, essa atitude garantiria inovações fantásticas nos seus próximos trabalhos, por outro, seria decisiva para o final da própria banda.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

John Coltrane - Um Amor Supremo!


John Coltrane sempre foi considerado o maior saxofonista de jazz de todos os tempos. Já faz alguns anos que tive contato com sua obra, que nunca deixou de me surpreender. O cara tem uma musicalidade estonteante. Desde sua fase com Miles Davis, passando por dependências pesadas em heroína e álcool, até seus álbuns solo, John exala talento e criatividade.
Tenho como álbuns de cabeceira alguns trabalhos dele, como Blue Train (1957), Soultrane (1958), Giant Steps (1959) e Coltrane's Sound (1960), meu preferido! Todos são essenciais!

Coltrane passou sua vida a partir de 1957 tentando se descobrir como ser humano. Esta procura o levou até várias religiões, incluindo o islamismo. Sua primeira mulher Naima, teve grande ascensão sobre ele nessa época, e o ajudou a se livrar de seus vícios.


A sua obra máxima, seria lançada em 1964. O álbum A Love Supreme, é simplesmente uma conversa de seu autor com o criador! São verdadeiros hinos de amor e devoção de Coltrane a um ser supremo!
Para tentar entender melhor este seu trabalho grandioso e visionário, adquiri agora o livro de mesmo nome de Ashley Kahn, o qual recomendo para os que, como eu, precisam de mais informações sobre essa obra de Trane, ou amantes do jazz em geral.


Sei que John Coltrane é lembrado muitas vezes por sua fase final, quando ele rompe com os fraseados tradicionais e em que emprega a cacofonia como ingrediente importante de sua música. Mesmo pouco acessíveis, estes trabalhos deixaram sua marca. Interstellar Space e Expression são hoje considerados obras-primas.
Coltrane faleceu em 1967 com apenas 40 anos de idade. Não ouso compará-lo à ninguém, embora admire alguns de seus seguidores, como Albert Ayler. 
John Coltrane conseguiu tão somente modificar as estruturas melódicas! Neste sentido, existe a música antes e depois dele!

  
"Se você deseja uma reprodução fotográfica, não compre um Picasso. Se você deseja uma música popular, não ouça Coltrane."    Ralph J. Gleason, 1960. 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Two of Us


Recebi esta histórinha por e-mail, o autor não sei quem é. Tempos atrás escrevi algo parecido com esse 'papo' entre John e George! Fica aqui a história desse 'autor desconhecido', como mais um testemunho do show de Paul visto por dois pares de olhos que deixaram saudade.


Por trás dos cabelos longos e bigode, ele está olhando para baixo,
observando algo fixamente. É surpreendido pela chegada do
companheiro, que possui cabelos ainda mais longos que quase escondem
os óculos de aro fino.
O recém-chegado senta-se ao lado do amigo, olhando para baixo e
apertando os olhos devido à miopia. Após alguns segundos, pergunta:
– Ele já entrou no palco?
– Já. Está tocando há alguns minutos – responde o amigo.
– Onde é?
– No Brasil. Em São Paulo, acho.
– Está cheio?
– Muito.


O de óculos permanece em silêncio alguns segundos, tentando captar
o som que vem de baixo, de longe.
– O que ele está tocando agora? Jet?
– Acho que sim, não dá para ouvir direito por causa da gritaria.
Mas acho que é sim.
– Eu gosto desta música.
– Ele está falando com a platéia, mas não consigo entender nada.
– Acho que é português. Não dá para ouvir direito, o público
não deixa.
– Com a gente era assim, também. Lembra no Japão? Ninguém ouvia
nada.
– Olhe! All My Loving!
Ambos começam a bater as mãos no joelho, de forma quase
inconsciente, acompanhando o ritmo da música. “I’ll pretend that
I’m kissing…”, o de bigode canta baixinho.
– George! Você ainda se lembra da letra!
– Tem como esquecer? Aposto que você se lembra também.
– Eu me lembro de todas. Todas as músicas. Todos os versos.
– Ele está afinado ainda, não?
– Ele sempre cantou muito bem. Desde menino, ele sempre cantou
muito.
Ficam em silêncio mais um pouco, olhando para baixo atentamente.
– Qual é agora? Drive my Car? A platéia esta fazendo barulho
demais.
– Drive my Car. Essa é quase toda dele, sabia? Eu apenas ajudei
em uns trechos.
– Está no Rubber Soul, né?
– Acho que sim. Sim.


– A platéia está cantando a música inteira.
– Como eles sabem a letra? Eles não eram nem nascidos quando
lançamos isso.
– Não sei... Mas eles estão cantando a música inteira, John. Dá
para ver daqui.
Permanecem em silêncio por mais algum tempo. O de óculos, mesmo sem
perceber, balança a cabeça para os lados discretamente, ao som da
música.
– Ele foi para o piano.
– Eu nunca entendi como ele sabia tocar tantos instrumentos. Isso
não é normal.
That leads to your door
Will never disappear

– Qual ele está tocando agora? The Long and Winding Road?
– Sim. Veja! As pessoas estão chorando!
Afastando os cabelos do rosto, o míope aperta ainda mais os olhos,
vasculhando a multidão.
– Não gosto dessa música – ele diz, mais para si mesmo que para
o amigo.
– É linda. Ninguém conseguia fazer baladas como ele.
– Mas não gosto. Nós mal nos falávamos na época.
– Acontece. Acontece com todo mundo, por que não iria acontecer
com a gente?
– Verdade.
– Ele está tocando as nossas, olhe. Antes foi And I Love Her.
Agora é Blackbird.
– Eu não acredito que as pessoas ainda cantam junto, depois de
tantos anos... A letra não está aparecendo no telão? – pergunta
o de óculos, abaixando-se ainda mais e tentando ver o palco.
– Não, elas sabem mesmo. Dá para perceber daqui.
– Ele disse meu nome?
– Sim. Você sabe qual ele vai tocar. Ele escreveu para você.
I still remember how it was before,
and I’m holding back the tears no more…


– Você está legal, John?
– Eu e ele perdemos muito tempo. Hoje eu sei disso.
– Eu sei.
– Sabe, George... Se nós soubéssemos que eu teria tão pouco
tempo, talvez tivéssemos nos comportado de outra maneira.
– Talvez não. Vocês sempre foram melhores amigos. Ele sabia
disso. Ele faz questão de cantar essa, todo show. E ele sabe que
você está vendo. Ele não canta para a platéia, ele canta para
você. É a forma que ele encontra de matar a saudade um pouco.
– Será?
– Sim. Eu senti muito sua falta antes de nos reencontramos. Olhe as
pessoas lá embaixo, estão soluçando. Todos sentem sua falta.
– Eu sinto muito a falta dele. Eu sinto muita saudade da gente.
Especialmente do começo. Lembra da Alemanha?
– A gente ainda era menino... Tudo era o máximo, tudo era
novidade. Nós éramos novidade.
– Nós ainda somos novidade. Olhe, essa é sua!
You’re asking me, my love will grow?
I don’t know, I don’t know

– Eu me lembro de quando escrevi. Era difícil escrever algo com
vocês ali.
– Essa música é linda.
– Olhe! No telão! Ele colocou uma foto minha!
– A gente gostava demais de você. Você era mais novo, víamos
você como uma espécie de caçula.
– Eu sei – concorda o de bigode, rindo alto.
Esperam em silêncio a plateia aplaudir. Ao final da música, ambos
estão visivelmente emocionados, cada qual com suas lembranças. Os
acordes de uma nova canção parecem despertá-los.
– Eu gosto dessa!
– Essa é dele, não é nossa.
– Band on the Run? Mas poderia ser nossa.
– Se dependesse de mim, seria.
– Ah, sim. De todos nós, você sempre foi o mais roqueiro, essa
música é a sua cara.
– Ele fez muita coisa boa, né?
– Sim.

Enquanto o de óculos bate os dedos no joelho, o de bigode, sentado
de pernas cruzadas transforma sua própria coxa no braço de uma
guitarra imaginária. Ambos parecem distantes, talvez pensando não
no que foi, mas no que poderia ter sido.
I read the news today oh boy
About a lucky man who made the grade


Enquanto o de bigode tamborila os dedos no ritmo, seu amigo remove os
óculos rapidamente. Está chorando.
– Você sempre chora nessa.
– Foi uma das últimas que escrevemos juntos. Mesmo separados.
Metade é minha, metade é dele. É estranho, hoje, vê-lo cantando
minha parte, e eu aqui.
– Ele não está cantando sozinho.
– Como não?
– Olhe o estádio. É uma voz só, uma voz de sessenta mil pessoas.
– O que são aquelas coisas brancas? Balões de gás?
– Sim.
– Como isso fica bonito, vendo daqui de cima.
– Espere… Give peace a chance? Isso não era da música, certo?
– Não.
– Isso é seu!
– Sim.
– O estádio inteiro está cantando! Olhe os balões de gás! As
pessoas estão chorando, se abraçando.
O de óculos resmunga um palavrão, sorrindo. Seus óculos estão
embaçados, molhados de saudade.
– Let it be. Essa não poderia faltar.
– Eu não me conformo com isso, com as pessoas ainda saberem as
letras inteiras.
But in this ever changing world
in which we live in

– Eu gosto dessa também.
– Uau! Você viu aquilo, John? São fogos?
– Ficou demais, né?

– Nós não tínhamos isso no nosso tempo.
– Nós não precisávamos.
– Mas ele também não precisa. Mesmo assim, ficou lindo.
– O que as pessoas estão cantando, agora? Hey Jude?
– Sim... Estão abraçados, cantando junto com ele.
– É engraçado, George... Eu sei que nós éramos bons... Mas acho
que nunca entendi a importância que temos na vida das pessoas, até
pouco tempo atrás. Quando eu assisto aos shows dele, e vejo as
pessoas cantando junto, chorando... Mexe demais comigo.
– Nós éramos bons, John. Você sabe disso.
– Aparentemente, ainda somos. As pessoas ainda...
– Ainda o quê?
– Sabe, eu estava errado.
– Oi?
– Quando eu disse que o sonho acabou. Eu estava errado.
– Nós três sempre soubemos disso, que você estava errado.
Você sempre falou demais. Lembra aquela confusão de sermos maiores
que Deus?
– Sim... Mas o sonho... O sonho não acabou nunca. Eu errei.
– John?
– Sim?
– O sonho nunca vai acabar. Não enquanto as pessoas se lembrarem.
E elas vão se lembrar para sempre.
Sorrindo, John Lennon levanta-se e oferece a mão a George Harrison.
– Você está com sua guitarra?
– Eu sempre estou com minha guitarra, você sabe.
– Vamos tocar um pouco?
– Qual?
– Qualquer uma. Deu saudade.


Milhões de quilômetros abaixo, Paul McCartney, emocionado,
agradece à platéia.

domingo, 28 de novembro de 2010

We'll Meet Again, George!

 
Há 9 anos, no dia 29 de novembro, George Harrison deixou esta vida. Ao mesmo tempo triste por sua partida, e feliz por saber que ele está bem acompanhado, resolvi tirar o domingo para ouvir sua música. Acordei com 'Try Some Buy Some' na cabeça! Vou iniciar os trabalhos com o álbum Living in the Material World! Alguém me acompanha?? Incenso aceso! Hare Krishna!! 

"Way back in time
Someone said try some
I tried some
Now buy some - I bought some . . .
Oh Oh Oh
After a while
when I had tried them
denied them
I opened my eyes and
I saw you . . .

Not a thing did I have
Not a thing did I see
'Till I called on your love
And your love came to me

Through my life
I've seen gray sky,
met big fry,
seen them die to get high . . .
Oh Oh Oh
And when it seemed that I would
always be lonely
I opened my eyes and I saw you

Not a thing did I feel
Not a thing did I know
'Till I called on your love
And your love sure did grow

Won't you try some
Baby won't you buy some

Won't you try some"


Este texto escrito 'with a BIG help from my friend' Márcio Grings, está no Alto e Bom Som!
 
PARECE QUE FOI ONTEM ....MAS LÁ SE VÃO 9 ANOS. PUXA VIDA!! LEMBRO O QUANTO FIQUEI TRISTE NAQUELE 29 DE NOVEMBRO E, A SENSAÇÃO DE QUE O MUNDO NÃO SERIA MAIS O MESMO – PORQUE TODOS SABEMOS, CERTAS PESSOAS SÃO INSUBISTITUÍVEIS. SEGUNDO A SABEDORIA POPULAR OS BONS PARTEM MAIS CEDO – “PRIMEIRO LENNON, AGORA GEORGE”, PENSEI – “QUEM SERÁ O PRÓXIMO ... RINGO???”.


A CONTRIBUIÇÃO DE GEORGE HARRISON PARA A MÚSICA DO SÉCULO XX É BEM MAIS SUBSTANCIAL DO QUE A VÃ SABEDORIA POSSA IMAGINAR. JUNTO AOS SEUS COMPARSAS, GEORGE FORMATOU O MODELO DA CANÇÃO POP. ALÉM DISSO, COMO INSTRUMENTISTA O ESTILO HARRISON É ALGO MUITO DIFÍCIL DE SER IMITADO E A SUA DIGITAL SONORA É PRATICAMENTE ÚNICA. GEORGE HARRISON SEMPRE ABDICOU DOS VIRTUOSISMOS EXASPERADOS, OPTANDO POR UM CAMINHO MAIS SÓBRIO COMO INSTRUMENTISTA – COM DESTAQUE PARA O SLIDE EM DETRIMENTO DAS LONGAS IMPROVISAÇÕES.


DURANTE SUA PASSAGEM PELOS BEATLES, AS COMPOSIÇÕES PRÓPRIAS COMEÇARAM A APARECER TIMIDAMENTE E FORAM EVOLUINDO COM O PASSAR DOS ANOS PARA TEMAS DO CALIBRE DE IF I NEEDED SOMEONE, TAXMAN, WHILE MY GUITAR GENTLY WEEPS, HERE COMES THE SUN E SEU GRANDE SUCESSO BEATLE – SOMETHING. FOI ELE QUE CONDUZIU O GRUPO NO CAMINHO DA MEDITAÇÃO TRANSCENDENTAL E DA MÚSICA INDIANA, SENDO TAMBÉM O INTRODUTOR DA CÍTARA NA MÚSICA OCIDENTAL. COM O FINAL DA BANDA.


EM 1970, HARRISON DESLANCHOU COM SEU ÁLBUM DE ESTRÉIA, ALL THING MUST PASS – UM BOLACHÃO TRIPLO ONDE DESFILAVAM MEGA SUCESSOS COMERCIAIS COMO MY SWEET LORD E WHAT IS LIFE, MISCIGENADAS A CANÇÕES MAIS INTROSPECTIVAS E IMPREGNADAS DE UMA BEM DOSADA CARGA ESPIRITUAL E RELIGIOSA. PARA AJUDAR O PAÍS DE SEU AMIGO RAVI SHANKAR, PROTAGONIZA EM 1971 O PRIMEIRO MEGA CONCERTO BENEFICENTE DA HISTÓRIA, O LENDÁRIO CONCERT FOR BANGLADESH NO MADISON SQUARE GARDEN.


A PARTIR DE 1972 A CARREIRA – E A VIDA – DE GEORGE OSCILAM ENTRE ALTOS E BAIXOS VERTIGINOSOS. JUNTO A SUA BANDA DE APOIO, FEZ UMA DESASTROSA DIGRESSÃO PELOS ESTADOS UNIDOS EM 74; NO MESMO ANO, A ESPOSA DELE NA ÉPOCA – PATTY BOYD O ABANDONA PARA DIVIDIR A CAMA COM ERIC CLAPTON, SEU MELHOR AMIGO E CONFIDENTE NAQUELES TEMPOS DE AMOR LIVRE; MAS VIDA QUE SEGUE, LOGO EM SEGUIDA ELE ACABA ENCONTRANDO A TÃO ALMEJADA ALMA GÊMEA – A MEXICANA OLIVIA ARIAS, QUE LHE DARIA SEU ÚNICO FILHO, DHANI.


 EM 81 GRAVA O SUCESSO ALL THOSE YEARS AGO, HOMENAGEANDO O AMIGO JOHN LENNON ASSASSINADO NO ANO ANTERIOR. MEIA DÉCADA DEPOIS RETORNA AS PARADAS DOS DOIS LADOS DO ATLÂNTICO COM O ÁLBUM CLOUD NINE, CONSIDERADO POR CRÍTICA E PÚBLICO UM DE SEUS MELHORES TRABALHOS.
NO FINAL DOS ANOS 80 INTEGRA AO LADO DE BOB DYLAN, TOM PETTY, ROY ORBISON E JEFF LYNNE – O QUINTETO TRAVELLING WILBURYS, UMA BANDA DE SUPER ASTROS QUE DEMARCA SUA COMUNHÃO E PARCERIA EM DOIS ÁLBUNS MUITO ELOGIADOS.

EM 1991, HARRISON VOLTA AOS PALCOS, REAPROXIMANDO-SE DE ERIC CLAPTON (NUMA CLARA DEMOSTRAÇÃO DE GRANDEZA E AUSÊNCIA DE RESSENTIMENTOS), NA FESTEJADA TURNÊ PELO JAPÃO (QUE VIROU UM LP DUPLO) AO LADO DO VELHO CAMARADA.
NOS ANOS SEGUINTES, JUNTO A McCARTNEY E RINGO, PARTICIPA DO PROJETO ANTHOLOGY, REVIVENDO COM SEUS ANTIGOS PARTNERS OS ANOS DOURADOS DO FABULOSO QUARTETO FANTÁSTICO DO ROCK´N´ROLL.


NOS TRÊS ÚLTIMOS ANOS DE VIDA ENQUANTO LUTAVA CONTRA UM CÂNCER, DEDICAVA GRANDE PARTE DO TEMPO À UMA DE SUAS MAIORES PAIXÕES – A JARDINAGEM! HARRISON NÃO QUERIA SER LEMBRADO COMO UM ASTRO POP (ERA CONHECIDO POR SER O MAIS TÍMIDO E DISCRETO DOS BEATLES), COMO TAMBÉM FUGIA ASSINTOSAMENTE DOS HOLOFOTES E DE TODA A PURPURINA DO MAINSTREAM, PREFERINDO SEMPRE A COMPANHIA DA FAMÍLIA E O ISOLAMENTO COMO ESTILO DE VIDA. EM 2001, FINALMENTE PERDE A BATALHA PARA O CÂNCER E RETORNA PARA O JARDIM.
APÓS À SUA MORTE, BOB DYLAN DISSE EM UMA ENTREVISTA: “ELE TINHA A FORÇA DE CEM HOMENS. O MUNDO SE TORNOU UM LUGAR MAIS SOLITÁRIO SEM GEORGE.”
UM ANO DEPOIS CHEGA AS LOJAS O ÁLBUM PÓSTUMO BRAINWASHED, UM INTERESSANTE REGISTRO DA ÚLTIMA SAFRA DE COMPOSIÇÕES DE HARRISON – TRABALHO QUE FOI DEDICADO A TODOS OS JARDINEIROS DO MUNDO! OUTRO BELO RECADO DO ETERNO MENINO TÍMIDO DAQUELA BANDINHA INGLESA QUE MUDOU O MUNDO NOS ANOS 60.


SEGUNDO UM VELHO PROVÉRBIO ORIENTAL, EM GRANDE PARTE DAS VEZES A FELICIDADE ESTÁ ESCONDIDA NO NOSSO PRÓPRIO JARDIM, MAS É MUITO PROVÁVEL QUE ELA ESTEJA COBERTA PELO MATO E ERVAS DANINHAS. QUEM SABE EM UM DIA QUALQUER DESSES IGUAIS A TANTOS OUTROS - SIGAMOS O CONSELHO DE GEORGE, VOLTANDO OS OLHOS PARA O NOSSO PRÓPRIO QUINTAL, E ATÉ MESMO (QUEM SABE!) TRANSFORMANDO O MUNDO NUM LUGAR BEM MAIS BONITO E AGRADÁVEL DE SE VIVER.
PRECISAMOS URGENTEMENTE RETORNAR AO JARDIM! 


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Roman Polanski - Cenas Mais do que Reais!!

            Em 2008, escrevi este texto sobre um de meus diretores preferidos. Polanski completava 75 anos no dia 18 de agosto daquele ano. 
Fui obrigado a fazer uma observação no final do texto, devido a novos acontecimentos relacionados com o caso de intercurso sexual ilegal, que se arrasta desde 1977, e claro, um novo filme lançado!
Longa vida ao Mestre!!               


        
Um dos maiores diretores de cinema ainda em atividade, Polanski é igualmente conhecido pela sua magnífica obra e suas tragédias pessoais.
Roman nasceu em Paris, filho de pais poloneses, ele passaria sua infância em Varsóvia onde sua mãe seria uma vítima do holocausto. O pequeno Polanski consegue sobreviver buscando abrigo junto a amigos e parentes durante a segunda guerra mundial. Quando a guerra acaba ele reencontra seu pai. Os dois foram os úncios sobreviventes da família.

Polanski cedo se interessa por fotografia e filmagens e cursa a Escola de Cinema de Lodz, onde conclui os estudos em 1959. Neste mesmo ano ele se casa com a atriz polonesa Barbara Kwiatkowska.
Após vários curtas de sucesso, como ‘Dois Homens e Um Guarda-Roupa’, ‘Quando os Anjos Caem’, ‘O Gordo e o Magro’ e ‘Mamíferos’, ele consegue rodar seu primeiro longa na Polônia chamado ‘A Faca na Água’. Lançado em 1962, é um interessante estudo psicológico de 3 pessoas convivendo em um pequeno barco.

Na França em 1964,  conhece aquele que viria a ser seu roteirista em vários filmes, Gérard Brach, e consegue um acordo de filmagem com a produtora de cinema “Compton Group’. A quatro mãos, Polanski e Brach escrevem o roteiro de ‘Repulsa ao Sexo’ que viria a ser seu primeiro filme falado em inglês, e com a participação da então iniciante atriz Catherine Deneuve.
Apesar de ser um dos filmes que menos o agradou tecnicamente, Polanski conseguiu notoriedade com esse drama de terror psicológico muito à frente de seu tempo.

 
Já separado de sua primeira mulher, Barbara, em 1965, ele  parte para  Holy Island na Inglaterra, onde roda um de seus melhores trabalhos, o pouco conhecido do público, ‘Armadilha do Destino’. Este longa, viria a ser um dos mais influentes filmes para uma geração inteira de cineastas. Os movimentos de câmera são inovadores para a época, e a trama,  tendo como pano de fundo um castelo claustrofóbico, é uma mistura de humor e tragédia, o que sempre foi uma marca de seus filmes e de sua vida.  Muito justamente ele seria premiado com o ‘Urso de Ouro’ de melhor filme em Berlim, 1966.


No final desse ano, Roman começa a escrever com Gérard Brach um roteiro sobre vampiros. Na verdade ‘A Dança dos Vampiros’ se tornaria uma paródia e um de seus filmes mais cultuados. Para atriz principal lhe é sugerido o nome de Sharon Tate, uma americana que fazia pontas em séries de TV.
Ele não apenas a contrata, como também se apaixona por Sharon. Eles se casariam em janeiro de 1968.


Faltava para Polanski um grande sucesso comercial, e ele viria com o filme ‘O Bebê de Rosemary’, baseado no livro de Ira Levin. Foi seu primeiro filme em Hollywood, e as locações foram quase todas feitas no sinistro Dakota Apartments em Nova Iorque. Destaque para a magistral atuação de Mia Farrow, como a dona de casa que teve um bebê com o demônio. Outra marca registrada de Roman é o cuidado com a trilha sonora. Seu amigo de longa data, o músico polonês Komeda, compõe duas canções de ninar belíssimas para a interpretação da própria Mia Farrow, que acrescentam ao filme um efeito hipnótico.


Após o imenso sucesso de ‘O Bebê de Rosemary’, ele decide descansar e aproveitar a vida doméstica. Sua esposa Sharon engravida, e ele resolve fixar residência nos EUA.        
Após longas férias, ele se vê obrigado a viajar para Londres a fim de trabalhar em um novo roteiro, pouco antes da data prevista para o nascimento de seu primeiro filho.
Em agosto de 1969 a tragédia se abate novamente sobre Roman Polanski. Sua mulher Sharon Tate, grávida de oito meses, e mais 4 amigos são brutalmente assassinados pela infame gangue do maníaco Charles Manson, em sua casa de Los Angeles.
Muito tempo depois, Roman diria que a morte de Sharon foi o único divisor de águas em sua vida. A partir daquele momento sempre que estivesse se divertindo, ele se sentiria culpado.


Indeciso sobre o que fazer para tentar esquecer mais esta tragédia, Polanski busca a saída no trabalho, e resolve adaptar ‘Macbeth’ de William Shakespeare para o cinema. Trabalhando em Londres com Kenneth Tynan no roteiro, eles produzem uma versão acessível de Shakespeare, passando longe dos clichês teatrais presentes nas películas de Orson Welles e Akira Kurosawa.
Em 1972, ele fixa residência em Roma, onde roda seu filme mais obscuro, a comédia ‘Que?’, com Sydne Rome e Marcello Mastroianni. Um fracasso comercial para os padrões de Polanski.

 
Precisando recuperar o prestígio, Polanski resolve relutantemente aceitar o convite de Jack Nicholson e voltar a Los Angeles, onde tudo lhe lembrava o trágico assassinato de sua esposa.
Instalado na casa de Nicholson, Roman é presenteado com um exemplar do livro ‘Chinatown’ de Robert Towne. Ele e Jack resolvem imediatamente unir esforços e fazer uma versão para o cinema.Towne é contratado para trabalhar com Roman no roteiro complicadíssimo.
‘Chinatown’ ficaria conhecido como um dos mais belos thrillers já realizados, - teve várias indicações ao ‘Oscar’, inclusive tendo ganho o de melhor roteiro – e como uma  das melhores atuações de Jack Nicholson no cinema. O sucesso de crítica e comercial foi imediato e estrondoso.

De volta à França em 1976, ele resolve dirigir e atuar naquele que seria o aclamado cult movie, ‘O Inquilino’, onde ele interpreta o papel de um tímido bancário que passa a ter alucinações e se vestir de mulher. Este filme rodado com um orçamento baixíssimo, até hoje é motivo de discussão entre os apaixonados pela obra de Polanski.

Novamente nos EUA no início de 1977, é contratado para fotografar adolescentes para a revista ‘Vogue’, o que acaba gerando uma grande confusão, incluindo um processo contra si por ‘intercurso sexual ilegal’ de uma garota de 14 anos. A Vogue não se manifesta a favor de Roman no processo, aliás alega nem tê-lo contratado.
Polanski é obrigado a se declarar culpado para evitar danos maiores à menina, e é sentenciado a um período de no máximo 3 meses para avaliação psicológica numa penitenciária em Los Angeles. Após 42 dias ele é libertado e imagina poder continuar vivendo normalmente nos EUA, quando o juiz, - em uma reviravolta do caso, pressionado pela mídia e a opinião pública - pensa em mandá-lo novamente para a prisão por tempo indeterminado.
Ele então abandona a América, fugindo para Paris, ficando impossibilitado de regressar aos EUA, pois seria preso ao desembarcar.
 Até hoje o caso é polêmico, mas Polanski sempre jurou inocência e recebeu o apoio de amigos como Jack Nicholson e Harrison Ford.

 
Após a encrenca em Los Angeles, Roman mergulha novamente no trabalho e resolve adaptar o romance  de Thomas Hardy, ‘Tess dos Urbervilles’. O filme - a produção mais cara até então a ser  realizada na França - marca a  estréia de Nastassja Kinski  em um papel  de destaque. Ela então com apenas 17 anos seria alçada a condição de estrela. Nastassja e Polanski também viveriam um tórrido caso de amor, que duraria pouco tempo.
‘Tess’, foi um grande sucesso, apesar da longa e difícil filmagem. O filme levou o ‘Oscar’ de melhor figurino, direção de arte e fotografia.

Um antigo roteiro escrito por Polanski e Brach  - ‘Piratas’ -  feito com a ideia de ter Jack Nicholson no papel-título, é reformulado e filmado com Walter Matthau como o perverso ‘Captain Red’! Uma sátira sensacional de Polanski aos filmes de piratas e que seria muito imitada, inclusive em filmes atuais como ‘Piratas do Caribe’.
‘Busca Frenética’ une Roman e seu amigo Harrison Ford num thriller em homenagem a Hitchcok, em que sua atual mulher Emanuelle Seigner faz sua estreia no cinema.


'Lua de Fel’ lançado em 1992, com a participação de Hugh Grant e também de Seigner,  é considerado um de seus melhores filmes. Houve até quem enxergasse um paralelo da vida – principalmente sexual - de Polanski com o personagem de Grant.


Em 1994 estreia ‘A Morte e a Donzela’, um filme sobre torturados políticos, tendo como cenário um país sul-americano libertado de uma ditadura sangrenta, estrelando Sigourney Weaver e Ben Kingsley.
No final da década, Polanski volta a brincar com o sobrenatural e lança o pouco inspirado ‘O Último Portal’ com Johnny Depp.

No ano de 2001 Polanski resolve finalmente enfrentar o fantasma de sua infância e começa a filmar o holocausto baseado num livro de Wladyslaw Szpilman.
‘O Pianista’, lançado em 2002, é para muitos a sua obra prima. Foi difícil esta revisita ao passado, mas ele venceu a batalha. O filme conta todo o horror da ocupação nazista num gueto de Varsóvia, habitado por um sensível e brilhante pianista, que perde toda sua família.


 Além da ‘Palma de Ouro’ de melhor filme em Cannes, o filme ganha 3 “Oscar’. Melhor ator para Adrien Brody, melhor roteiro adaptado, e finalmente o de melhor diretor para Polanski, que não podendo comparecer a cerimônia da Academia teve de receber seu prêmio em Paris das mãos de Harrison Ford.

Seu último trabalho lançado foi ‘Oliver Twist’. Apesar da bela fotografia e cenários majestosos, foi apenas uma pálida imagem da grande obra de Charles Dickens.

Polanski aos 75 anos, está mais ativo do que nunca. Após desistir do projeto do filme ‘Pompéia’, ele prepara para setembro deste ano o começo das filmagens de ‘The Ghost’. O filme será sobre um ‘ghost writer’ – escritor que recebe para escrever um trabalho, mas que não tem seu nome creditado - contratado para escrever as memórias de um ex-primeiro ministro inglês.

Sempre uma pessoa polêmica, despertando ao mesmo tempo admiração e repulsa,  o certo é  que Roman Polanski soube superar todos os obstáculos e é simplesmente impossível ficarmos impassíveis quando assistimos a qualquer uma de suas obras.

      
*Em setembro de 2009  cumprindo mandado de prisão expedido pelos EUA, Roman Polanski é preso pela polícia ao desembarcar na Suíça vindo da França para receber um prêmio por sua obra.
 Uma longa batalha judicial tem início. Ele é solto sob fiança dois meses depois e transferido para prisão domiciliar em seu chalé na Suíça, onde fica confinado até julho de 2010, quando é libertado pelas autoridades suíças que negaram o pedido de extradição aos EUA.

Em 2010 seu filme  ‘The Ghost Writer’ – o qual Polanski terminou a pós-produção na cadeia – tem sua estreia nos cinemas, com as partcipações de Ewan McGregor e Pierce Brosnam. Sucesso de crítica!