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quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Guitarra entende Buddy Guy!





Quando o tecladista Marty Sammon anunciou o nome de George 'Buddy' Guy à plateia presente no teatro do Bourbon Country, a comoção foi tremenda. E porque isto?
Bem, o público presente foi diferenciado. Não falo em termos de preço de ingressos, mas de cultura musical.
É sabido que o blues não é, de longe, o estilo musical mais apreciado por aqui. Tampouco o nome Buddy Guy é muito conhecido por quem não é 'do ramo'. Acontece que os aficcionados do estilo - e suas namoradas, mulheres e seus filhos - estavam lá presentes. Eram pessoas que conheciam até as letras das músicas que Guy tocou, o que não é pouca coisa.
Dito isto, os primeiros acordes de 'Nobody Understand Me But My Guitar', soaram como um trovão no teatro. Esse senhor de 75 anos, trajado com boina e calças brancas e uma camisa escura, parecia um guri, mas com uma voz que lembrava o rugido de um leão. Seus riffs soavam etéreos e ameaçadores ao mesmo tempo.




A banda? Não conhecia nenhum deles pelo nome, mas eram gente de respeito do cenário blueseiro. O tecladista Sammon, que já citei, é tipo o líder do grupo. Guy seguidamente o elogiava, e se dirigia para perto dele, como para se sentir mais seguro.
Quem segurou a barra foi também o guitarrista Rick Hall. Convidado a solar várias vezes, enquanto Guy dava um tempo, o cara mostrou que é fera. Manteve um pique digno de acompanhar Mr.Guy. O baixista Orlando Wright e o baterista Tim Austin formaram uma cozinha coesa e pesada, que deram um atendimento de primeira linha aos solos de Buddy.


As clássicas? Não faltaram. 'Hoochie Coochie Man' de Willie Dixon veio logo no início, e foi saudada e acompanhada pela galera. Buddy Guy nunca foi um grande compositor, apesar de sempre pintar alguns de seus trabalhos em seus álbuns, mas ele sabe interpretar clássicos do blues como ninguém. Exemplo disto foi  'I Just Want to Make Love to You', outra música de Dixon, que já foi incensada por Muddy Waters nos anos 50, e mais recentemente pelos Stones. Um tal de 'Zé Bonitinho' pediu 'I Put a Spell on You', Buddy pediu desculpas, mas essa ele não tinha... 
Falando em Waters - o blues-man, não o rock-star -, temos que reconhecer que muito do que vimos lá no Bourbon, tinha o toque mágico do senhor Muddy 'Mississipi' Waters. Ele foi um dos grandes ídolos de Buddy, alguns falam até em 'professor', mas não gosto deste termo. Guy, claro, tem seu próprio toque de gênio nas seis cordas, e também foi ídolo de muito 'peixe-grande' da música, como por exemplo Mr. Jimi Hendrix!




Pintou música nova? Algumas. Seu último disco foi o animado e pesado 'Living Proof' de 2010. Desse petardo musical, me soaram familiares, a própria faixa-título, pesadona e gostosa, e o blues clássico '74 Years Young', - uma brincadeira com a idade de Buddy em 2010 - mas completamente verdadeira. O cara não envelhece!


Momentos emocionantes? Poderia dizer que foram todos, mas especialmente sua versão de 'Fever', imortalizada por Peggy Lee. Não esperava este standard do jazz na voz, e na guitarra do velho Bud.
Mais emocionante talvez, foi o seu depoimento (em inglês, ainda bem), que 'infelizmente o blues não toca mais nas rádios'. E aqui me permito discordar do Mestre! Ele toca Mr. Guy, e sempre vai tocar na voz de garotos brancos, alguns imitadores baratos, outros que se aproveitam de riffs do gênero e o transformam em música de consumo, mas também toca com gente boa. O guitarrista Jimmy Page, por exemplo, nunca negou que aproveitou e chupou tudo que pode de gente boa do blues.




Não é este reconhecimento que Buddy esperava, eu sei, nem esse 'roubo' enche barriga, mas quem sabe a garotada acorda, e vai buscar e comprar o original, certo?


Buddy citou também seu parceiro dos velhos tempos, o gaitista Junior Wells. Que dupla eles formavam! Quem quiser ter uma noção do que aprontaram esses dois 'malucos' juntos, tem de ouvir o álbum duplo 'Buddy Guy & Junior Wells Play the Blues' de 1972. Se você gosta um pouco de blues, nunca mais será o mesmo depois desta experiência. Ouça 'A Man of Many Words', 'This Old Fool' ou 'Bad Bad Whiskey', e depois venha me contar.


Guy comentou também sobre Eric Clapton, e floreou um pouco sobre temas como 'Strange Brew' e 'Sunshine of Your Love' do Cream. Dos Stones pintou 'Miss You' em parceria com 'Rock Me Baby' de B.B. King, também muito elogiado por Bud.
Buddy Guy foi muito amigo da lenda texana do blues, Steve Ray Vaughan. Naquela época, final dos anos 80, Buddy estava esquecido. Foi gente como Clapton e Vaughan que o trouxeram de volta ao palco e as gravações. Pintou desta época  a composição do próprio Buddy, 'Damn Right, I've Got the Blues', título de seu álbum de 1991.




Querem mais? Bem, ele fez mais! Buddy, ao som de 'Down Don't Bother Me', desceu do palco, e se emaranhou pelos corredores do teatro. Lá ele foi seguido, abraçado, fotografado e beijado por uma legião enlouquecida, dos 8 (literalmente) aos 80 anos! Lá em cima de novo, ele tocou guitarra com as costas, tocou com um lenço, tocou com os dentes (te mete, Jimi), distribuiu palhetas, assinou autógrafos em discos e guitarras, e, sim, foi embora e nos deixou com saudade!  


Buddy Guy, só me resta dizer que espero lhe encontrar novamente. Se não for tomando um chá em New Orleans, poderia ser novamente em algum palco do planeta.
Take care, guy!!
  


4 comentários:

cris disse...

Maravilha, Dado! Tu sabes tudo, hein? Beijo, Titina.

Eduardo Lenz de Macedo disse...

Nem perto, Titina. Apenas gosto muito dessa tal de música.
Adorei nosso almoço! Beijos.

Debbie disse...

Gostei da prosopopeia, hehe! Que bela 'resenha'!!
E a gente finge que acredita nesse seu 'nem de perto'...
xx

Eduardo Lenz de Macedo disse...

Proso... o que??? hehehe! xxx