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sexta-feira, 26 de julho de 2013
James Cotton - A Trilogia Blueseira!
Foi com grande satisfação que no início deste mês de julho recebi a notícia de que o gaitista e vocalista James Cotton iria se apresentar em Porto Alegre.
Eu não tinha mais esperanças de ver Cotton ao vivo, principalmente depois que soube que ele fez uma cirurgia para retirar um tumor da garganta em 2004.
Cotton, quase não canta mais, mas em seu último trabalho lançado recentemente ele ainda se arrisca interpretando apenas uma canção. O disco 'Cotton Mouth Man', se não conta com sua voz matadora, pelo menos ainda nos brinda com sua harmônica inigualável. Anos atrás sua interpretação do blues me caiu como um raio no disco 'Harp Attack' (junto de Junior Wells, Billy Branch e Carey Bell). Nunca mais esqueci do nome de Cotton!
Foi assim, preparado para ouvir 'apenas' sua gaita de boca, que me dirigi ao teatro da AMRIGS, terça-feira passada. Porém a chamada para o show já dava uma outra pista: era a 'James Cotton Blues Band', e não tão somente o artista solo.
Antes de comentar o show, devo dizer que meus ídolos do blues começam por Muddy Waters - nunca vou me perdoar por não ter nascido antes e poder tê-lo assistido nos anos 50, 60 ou 70! Destaco também a dupla Buddy Guy (esse eu vi ano passado) e Junior Wells (a melhor gaita e uma das melhores interpretações de blues na minha opinião). Não posso esquecer também de B. B. King, a quem assisti em 1986, no Gigantinho, ainda em plena forma.
Com King, Guy e Cotton, minha trilogia blueseira está completa! Agora posso descansar em paz, irmãos!
Voltando ao show, o que fez a diferença na AMRIGS foi a banda de Mr. Cotton. Os caras estavam muito a vontade para fazer tremer aquele teatro.
Pra começar, entraram em cena o guitarrista branco e canhoto Tom Holland, o baixista Noel Neal e o baterista Jerry Porter (já tocou com Magic Slim). Esse trio arrasou! Enquanto aguardávamos o James, eles tocaram alguns blues para ouriçar o público que quase lotava o teatro.
A técnica de Holland é algo gostoso de se ver. Seus solos, altamente melódicos e sofisticados, me lembraram em alguns momentos de Roy Buchanan (acho que não é exagero). O baixista Noel Neal, também é um protagonista, e solou com seu baixo em várias ocasiões. Fico muito feliz quando o baixo é tratado assim, como um instrumento de solo, e não apenas um acompanhamento ou uma base.
O baterista Porter, muito experiente, toca há pelo menos vinte anos com Cotton, e já se apresentou com vários blueseiros de renome. Sua batida firme e pesada, foi marcante.
Cotton finalmente apareceu, segurando uma bengala, com a voz mais rouca impossível, seus 78 aninhos, e, muito simpático, chamando o público pra participar do show.
Este cara, apesar de seu problema nas cordas vocais, tem agudos e graves impressionantes enquanto toca seu instrumento, ele simplesmente brinca com a gaita. As gaitas, eu diria, porque a coleção de harmônicas era extensa.
Para o show ficar completo faltava um vocalista, e ele se materializou na forma e no espírito de Darrell Nulisch, outro branco e experiente cantor de blues.
Nullisch e Cotton trocaram figurinhas o tempo inteiro, um no vocal outro na gaita, e assim o tempo voou naquela noite. Holland tinha que se conter com sua guitarra. O Mestre pediu, e ele baixou um pouco a bola.
As canções se basearam no que o blues tem de melhor, mas eu destacaria duas músicas de Muddy Waters, aliás, que foi com quem James Cotton começou sua carreira.
A clássica 'Blow Wind Blow', com um vocal impressionante de Nulisch, foi um dos pontos altos do show. Clapton gravou esta canção em 'Another Ticket', mas ouvi-la ao vivo, com Cotton junto, foi um marco.
Outra que não posso esquecer é 'Got My Mojo Working', standard de Waters, que Cotton recuperou e convocou todo mundo para cantar. Nós não decepcionamos Mr. Cotton: levantamos, gritamos e cantamos todos juntos!
James Cotton saiu aplaudido de pé! O Blues agradece!
segunda-feira, 15 de julho de 2013
'Com os Beatles' - 1963
Em novembro, o segundo álbum da melhor banda do planeta, completará 50 anos!
'With The Beatles', começou a ser gravado em julho daquele ano, e devido à inúmeras interrupções pelas crescentes turnês da banda, ele só foi completado em outubro.
Os Beatles seguiram o mesmo plano do primeiro álbum, mesclando composições próprias, sendo sete da dupla Lennon & McCartney, e uma de George Harrison (estreando como compositor), e seis de seus artistas preferidos.
Se o disco 'Please Please Me' fez sucesso apesar - ou por causa - da pressa com que foi gravado, parecendo um álbum ao vivo, neste segundo trabalho, os Beatles aprimoraram seu som.
Ringo Starr, soa muito melhor como baterista, Paul está mais confiante para cantar, George se solta mais nos violões, e Lennon continua dominante nas composições e nos vocais.
Iniciando com o rock agitado de 'It Won't Be Long', John já mostra a que veio. Sempre competitivo, em sua parceria com Paul, desta vez ele queria ter o domínio das ações desde o início. Se esta canção não empolga tanto como 'I Saw Her Standing There', o rockão do disco anterior, ela cumpre bem seu papel de abre-alas. Na sequência, a balada 'All I've Got to Do', é um bonito momento de Lennon, em que as famosas harmonias vocais entre ele e Paul (e George) começam a trilhar seu caminho histórico.
Se John começou o disco pegando pesado, McCartney não deixou por menos. 'All My Loving', pode ser considerada uma das primeiras grandes composições da dupla. Crédito para Paul, que começava a viver seu caso com a atriz Jane Asher. Suas baladas românticas, a partir deste momento, teriam sempre como alvo a bela ruiva de descendência nobre. O solo de guitarra que 'cobre' a música toda, é um dos melhores momentos de George como guitarrista, e um testemunho de que ele idolatrava o guitarrista americano Chet Atkins e o rockabilly de Carl Perkins.
Robert Freeman
George Harrison tinha um problema a resolver. Sendo o guitarrista solo da banda, ele em princípio, não se importou em 'apenas' usar e costurar seus 'riffs' em canções da dupla Lennon & McCartney, ou de outros rockeiros da época.
Porém, George sabia que poderia ir um pouco além disso, apesar de não poder contar com o auxílio de nenhum dos outros companheiros de banda. Assim, sua composição 'Don't Bother Me', não chega a ser uma obra de arte, mas sem dúvida nenhuma, é um início promissor para um compositor que ousaria chegar ao nível dos dois astros da banda. No futuro seu problema maior seria apenas o espaço para suas composições.
'Little Child' é outro rockinho alegre, mas descartável. Paul então, mostra um dos clássicos que cantava desde o tempo das excursões a Hamburgo, na Alemanha e que também fazia parte do repertório do 'Cavern Club': "Till There Was You' de Meredith Wilson.
Marca registrada dos Beatles, estas baladas interpretadas por Macca eram obrigatórias em shows da banda, e levavam as adolescentes ao delírio. Note-se o violão de George, em particular, e o baixo de Paul, discutindo durante toda a música.
John encerra o lado A, com o standart, 'Please Mr. Postman', sucesso já na voz de vários cantores e grupos de Rythm & Blues americanos, uma das fontes em que seguidamente os Beatles iam beber.
Astrid Kirchherr
Faço uma pausa aqui para comentar a capa do disco. O fotógrafo australiano Robert Freeman, foi instruído pelos próprios Beatles, sobre como eles deveriam aparecer na capa. A ideia veio do tempo de Hamburgo, em que a fotógrafa alemã Astrid Kirchherr, clicou-os em vários locais, sempre em preto & branco. Impressionados com a técnica de Astrid, os rapazes exigiram uma imagem assim em seu disco, apesar da contrariedade dos altos escalões da EMI, que queriam uma foto mais alegre. Os Beatles venceram, e a foto em preto & branco, com todos os rapazes bem sérios, clicada no corredor de um hotel, ficaria famosa no mundo inteiro, sendo até hoje copiada a exaustão por bandas e artistas modernos.
A cover de Chuck Berry, 'Roll Over Beethoven', seria um ponto alto da banda em sua curta carreira. George está muito inspirado, com sua guitarra passeando altiva pelo tema de Berry, acompanhado com maestria pela batida de Ringo. A voz de pouco alcance de Harrison se adaptou bem a canção. O ritmo é contagiante do início ao fim, e esta gravação ajudou a tornar Chuck Berry conhecido para os mais jovens.
Pulando a 'Hold Me Tight', de Macca, chegamos a outro clássico de Smokey Robinson, chamado 'You Really Got a Hold on Me'. Lennon ataca o vocal com convicção, e a novidade é que George é quem se une a ele na segunda voz. A música fica com um bonito efeito com a voz dos dois em combinação com as harmonias de Paul.
Ringo Starr é convidado a cantar em 'I Wanna Be Your Man', outra canção de Lennon & McCartney. A história desta música é bem conhecida. John e Paul já tinham uma parte dela composta, quando encontraram os Rolling Stones em um clube. O empresário dos Stones, Andrew Loog-Oldham, disse que a banda estava com problemas para conseguir músicas para seu repertório. Paul disse que eles tinham uma canção, mas que não estava terminada. A dupla Paul e John, então se retirou para uma mesa no canto do salão, e a terminou ali na frente dos incrédulos Stones.
A oferta foi bem aproveitada, pois tornou-se o primeiro sucesso de Jagger & cia.
Harrison, bate um recorde de cantar três vezes num mesmo álbum com 'Devil in Her Heart', selecionada novamente no mercado negro americano.
Lennon termina o álbum com 'Not a Second Time', composição sua, e com a rascante 'Money', outo clone americano, cantado no mesmo estilo de 'Twist and Shout' do disco anterior. As harmonias de Paul e George fazem o serviço direitinho, e esta música também se tornaria um item obrigatório nas apresentações futuras.
Os Beatles, mesmo com pouco tempo nos estúdios mostravam sinais de crescimento e seu som se tornava mais maduro. O ano de 1963 consolidou seu sucesso no Reino Unido e na Europa. Tudo o que eles precisavam agora, era de um número 1 na América.
A expectativa era de que em 1964, as coisas começassem a acontecer na terra do Tio Sam! Eles podiam sonhar com isto, mas não tinham a mínima ideia do que os esperava por lá!
domingo, 2 de junho de 2013
Roy Buchanan - O 'Feeling' da Guitarra!
Roy Buchanan, americano do Arkansas, nunca foi um guitarrista conhecido do grande público. Filho de um pastor, a religião teria uma forte influência em sua formação blueseira. Menino-prodígio da guitarra, já tocava seu violão aos 5 anos de idade.
Quando o rock'n'roll surgiu na vida de Roy, no final dos anos 50, ele resolveu encarar a estrada. Sua educação rígida, logo entraria em conflito com a vida de guitarrista itinerante.
Ele formaria em 1960 a banda The Hawks com o canadense Ronnie Hawkins, cujo baixista se chamava Robbie Robertson. Este grupo, mais tarde, evoluiria para o aclamado The Band, já sem a presença de Roy.
Na estrada, Buchanan não se segurava. Bebia pesado, e usava drogas de todos os tipos. Sempre em conflito consigo mesmo, Roy cansou desta vida, e em 1963 se casou com Judy, sua única esposa.
Seu estilo único de tocar guitarra chamou a atenção de gente como Eric Clapton e Jimmy Page. Robbie Robertson, claramente o imitava em seu trabalho na The Band. Roy foi então convidado a gravar.
Infelizmente seu estilo não se adaptava aos estúdios de gravação. Ele queria sempre impor suas próprias composições e sua técnica diferente. Roy não gostava de cantar, o que aumentava a rejeição das gravadoras.
Mesmo com todos os problemas, álbuns como 'Roy Buchanan' (1972), 'Second Album' (1973) e 'In The Beginning' (1974), compõe uma belo retrato sonoro do estilo inovador de Roy com sua inseparável Fender Telecaster.
O verdadeiro Roy Buchanan aparecia nas apresentações ao vivo. Ver o álbum 'Live Stock' (1975). Quando carinhas como Jeff Beck ouviam Roy dedilhar sua Tele em músicas como 'Sweet Dreams', sentiam que estavam presenciando algo único.
Aliás, em 1975 Beck homenageou Roy, dedicando a ele a canção 'Cause We've Ended as Lovers', composta por Stevie Wonder!
As gravações continuavam a não satisfazer o perfeccionismo de Buchanan que trocou de gravadora, passando da Polydor para a Atlantic. Na Atlantic, ele lançou dois álbuns interessantes: 'A Street Called Straight' (1976) e 'You're Not Alone' (1978), mas sempre com pouca repercussão.
Com problemas financeiros, agravados por suas bebedeiras e vícios diversos, seu estilo de vida começou a cobrar seu preço, fazendo com que sua guitarra ás vezes ficasse em segundo plano.
Em um último esforço, Roy gravou três álbuns para o selo Alligator, em que finalmente os resultados o deixaram satisfeito. 'When a Guitar Plays the Blues' (1985), 'Dancing on the Edge' (1986) e 'Hot Wires' (1987), mostram um guitarrista maduro, mas com seu feeling de garoto do Arkansas ainda intocado.
Em agosto de 1988, no interior da Virginia, Buchanan foi preso na madrugada por bebedeira e desordem. Ao amanhecer estava morto. Ele teria supostamente cometido suicídio, enforcando-se na cela. Os amigos que viram seu corpo notaram vários hematomas, e acusaram os policiais da Viginia, famosos por sua truculência. Nada ficou provado.
Perdemos assim, o 'melhor guitarrista desconhecido' do mundo!
Em rara entrevista, tentando explicar seu talento, Roy comentou: "Acho que é o feeling, o sentimento que ponho nas coisas. Existem vários guitarristas mais técnicos que estão no rádio todo dia, mas quando as pessoas me ouvem no rádio, elas sabem imediatamente que sou eu. É o feeling e a simplicidade".
Feeling e simplicidade de um cara único, chamado Roy Buchanan!!!
quarta-feira, 17 de abril de 2013
'Vida e Obra de Johnny McCartney' - Leno
Quem não lembra da Jovem Guarda e da dupla Leno e Lilian? O compacto simples da dupla com 'Devolva-me' no lado A e 'Pobre Menina', lançado em 1966, é provavelmente o de maior sucesso de todos os tempos no Brasil.
Pois bem. No final de 1970, Gileno Azevedo, mais conhecido como Leno, estava em plena carreira solo. Um dos músicos que participava do trabalho de composição e da produção do próximo disco de Leno, era um tal de Raulzito!
Sim, pessoal, Raul Seixas antes de estourar com sua música 'Ouro de Tolo' em 73, participava dos trabalhos dos amigos, e era produtor da CBS.
O álbum que viria a se chamar 'Vida e Obra de Johnny McCartney', acabou esbarrando nos censores da ditadura. O projeto foi abortado por tempo indeterminado, e cada um seguiu seu caminho.
Em 1995 a gravadora de Leno achou estas fitas em algum baú e o lançou em CD com pouca repercussão.
Foi somente em 2008 quando os direitos sobre a obra foram cedidos por Leno a 'Lion Records', gravadora norte-americana, que o Cd foi relançado lá fora. Tive agora o privilégio de receber este disco enviado pelo próprio Leno e confesso que me surpreendi com a qualidade do trabalho.
O álbum vem com um encarte muito legal, em inglês, contando toda a carreira de Leno e com as letras das canções.
Quem participou do trabalho foi o grupo 'A Bôlha', dando um tratamento bem rock ás canções de Leno e Raulzito. O álbum, além do bom e velho rock'n'roll, puxa para o lado do pós-tropicalismo.
Leno, que sempre foi ótimo músico e compositor, esbanja seu talento em canções como 'Por Que Não?', 'Não Há Lei Em Grillo City', e 'Deixo o Tempo Me Levar', todas composições suas. As letras, apesar de em sua maioria, parodiar e dar pequenos 'toques' na ditadura militar, não soam datadas.
Sua parceria com Raulzito na faixa-título ('Johnny McCartney') é um rock de arrepiar.
''Pobre do Rei' é uma música que Leno ganhou de presente de Marcos Valle. Na época Leno namorava a irmã de Marcos, e além de compô-la, Marcos também tocou piano elétrico na gravação. Sem dúvida, um ponto alto do disco. 'Peguei uma Apollo' de Arnaldo Brandão, se tornou um clássico 'cult' instantâneo para a geração anos 70.
Todo o álbum parecia a frente de seu tempo, por isso soa tão atual nos dias de hoje.
As outras composições com Raul, incluem a deliciosa 'Sr. Imposto de Renda', já naquela época reclamando do apetite do 'leão', a bela melodia de 'Convite para Ângela', que depois Raulzito transformaria na canção 'Sapato 36' e 'Sentado no Arco-Íris', que em seguida Leno cantaria no Festival Internacional da Canção de 1971, driblando os censores.
Este trabalho foi gravado entre novembro de 1970 e janeiro de 71 nos estúdios da CBS em 8 canais.
Apesar dos 42 anos de atraso até eu ter contato com este trabalho, fiquei com a sensação que a vida e a obra de Johnny McCartney poderia ter sido lançado hoje.
Leno, continua sua carreira lançando álbuns, DVDs e se apresentando ao vivo. Ele também lançou outro CD exclusivamente com as canções em dupla com Raul Seixas que tive o prazer de receber autografado.
Viva o rock nacional!
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Mr. Eric Clapton - 'Old Sock'!
Tenho ouvido muitas críticas negativas ao último disco de Mr. Eric Clapton lançado mês passado no mundo todo.
Confesso que não entendo as pessoas que criticam os trabalhos de figuras como ele, Paul McCartney, Bob Dylan, etc... O que mais esperam deles??
Clapton sempre foi uma pessoa que procurou evoluir em sua música, e na sua própria vida.
Do guitarrista que tocava 'blues puro' com os 'Yardbirds' (saiu porque a banda estava ficando comercial), e com os 'Bluesbreakers' de John Mayall, Clapton decidiu arriscar e montar um 'power trio' com Jack Bruce e Ginger Baker, o famoso 'Cream'!
A partir daí ele começaria a misturar o bom e velho rock e a compor e cantar, coisa que anteriormente não ousava.
No início de sua carreira-solo, ele enveredou por um lado mais swingado em álbuns como '461 Ocean Boulevard' e 'There's One in Every Crowd''. Muitos já não o entendiam. Queriam de volta o 'deus' da guitarra!!
As pessoas mudam e evoluem, Clapton é o melhor exemplo.
Em seus últimos trabalhos, ele já vinha mostrando sinais de que sua paixão passou a ser o jazz. Mas jazz ao estilo de Clapton.
Álbuns como 'Back Home' (2005), mais pesado, e 'Clapton' (2010) já delineavam com clareza a nova investida jazzistica de EC. Esta proposta chegou ao auge, quando EC se juntou a Wynton Marsalis e sua banda, para shows ao vivo que resultou no brilhante 'Play the Blues', um dos melhores álbuns de 2011!
Neste seu novo trabalho, 'Old Sock', EC faz uma mescla de canções que lhe caem bem aos ouvidos. Nada radical, porém o foco aqui passou a ser a harmonia, o vocal, o trabalho em conjunto, a música, enfim, e não as guitarras!
Claro que Mr. Clapton não dispensa seus solos, mas eles soam deveras contidos.
Sua escolha de repertório varia de clássicos dos anos 30, como 'The Folks Who Live on the Hill' de Hammerstein e 'Goodnight Irene' de Lead Belly, passando por country-music, com a bonita 'Born to Lose', composta em 1943, e chegando a um território bem conhecido de EC, o reggae de Peter Tosh em 'Till Your Well Runs Dry'.
Há convidados importantes no disco: Taj Mahal compôs, toca banjo e faz harmonia com Clapton na música de abertura 'Further On Down the Road', também em ritmo de reggae. Seu amigo J.J. Cale, parceiro do disco 'The Road to Escondido' em 2006, volta a acompanhar Clapton em 'Angel', uma canção sua de 1981.
A parceria mais importante porém, foi com Paul McCartney, que acompanha o vocal de EC em 'All of Me', além de tocar baixo acústico, os dois super contidos.
Surpresas no repertório? Acho que não. Talvez 'Still Got the Blues' de Gary Moore, tocada de forma emocional, mas ao mesmo tempo austera. Ela tem um belo arranjo de cordas, e um órgãozinho maneiro tocado por Steve Winwood.
Gostei muito de 'Your One and Only Man' de Otis Redding, na qual EC se solta mais, mas sempre com o reggae em vista.
Canções novas? Apenas duas. Ambas de seu 'aluno' Doyle Bramhall II: 'Gotta Get Over', muito legalzinha, com Chaka Khan acompanhando nos vocais e 'Every Little Thing' (não é a dos Beatles)!!
Mr. Eric Clapton encerra os trabalhos com outro standard: 'Our Love is Here to Stay' de George Gerhwin, deixando claro que este será o seu caminho daqui pra frente, até a aposentadoria, que, segundo ele, será daqui a dois anos apenas.
Tudo pode mudar! Como EC está sempre evoluindo, podemos também esperar mudanças significativas de uma hora para outra! As capas externas e internas do álbum sugerem uma eterna e inexorável mudança do tempo. Clapton pensa em sua música e em si mesmo deste mesmo jeito? Pode ser!
Atualmente, Clapton encontra-se em plena turnê norte-americana, e já está se preparando para a 4ª edição do 'Crossroads Guitar Festival 2013', em 12 e 13 de abril no Madison Square Garden, já com lotação esgotada. Este festival que acontece de 3 em 3 anos, tem toda sua renda destinada para 'Crossroads Foundation'. Esta ONG bancada por EC auxilia os ex-viciados em drogas e álcool.
Vida longa ao 'slowhand'!!!
terça-feira, 2 de abril de 2013
Who Breaks a Butterfly on a Wheel?
Ultimamente com a onda dos 50 anos dos Stones a pleno vapor, me deixei contaminar por esta febre.
Em 2010 eu já havia lido a antológica auto-biografia de Keef, chamada 'Vida'.
No início do ano passado passei os olhos pelo interessante livro 'Under Their Thumb' de Bill German, um relato bem legal de um fã que vivenciou a 'stonemania' dos anos 70 e 80.
Pouco tempo atrás terminei a auto-biografia de Ron Wood, que se não foi uma maravilha como a de Keith, tem muita curiosidade incrustada naquelas páginas, e mostra o brincalhão Woodie, exatamente como eu o imaginava: um festeiro de primeira linha!
Um outro livro chamou minha atenção nos últimos dias, e o estou devorando como se fosse um chocolate de Páscoa! Trata-se de 'Encurralados - Os Stones no Banco dos Réus' (Madras, 2012), de Simon Wells.
Como podemos ver pelo título, o livro trata dos problemas (que não foram poucos) dos Stones com a justiça.
Começando a ter que prestar contas a Lei em 1964, por urinarem do lado de fora de um posto de gasolina, até os sérios problemas de Keith com a heroína, o livro não é apelativo, e mostra com clareza como os caras foram perseguidos, principalmente nos anos 60, por forças reacionárias, determinadas a vê-los atrás das grades.
O ponto alto da pesquisa de Wells, nos leva a famosa festa realizada em 'Redlands', casa recém comprada por Richards, em fevereiro de 1967.
Ninguém havia programado uma festa, mas a ocasião serviria para o já iniciado Keef, apresentar o LSD para seu parceiro Mick Jagger, e então eles se tornariam - era o que se esperava - pessoas mais próximas.
Além de Keef e Mick, que trouxe sua namorada Marianne Faithfull, quem também apareceu foi o marchand Robert Fraser, amigo da dupla. Quem não poderia faltar também, era o fotógrafo Michael Cooper, amigo de Fraser, e que se tornaria íntimo de Keith. Cooper imortalizou imagens da ocasião - principalmente de Keith na praia - e depois também seria obrigado a clicá-los algemados!!
Brian Jones e sua ainda namorada Anita Pallenberg, foram barrados, após Keith ir buscá-los em casa, e presenciar outra de suas famosas brigas! Ela logo trocaria Brian por Keef!
Robert Fraser trouxe seu mordomo particular, chamado Mohammed Jajaj, e outro penetra foi um jovem conhecido por Nicky Kramer, que quase não abriu a boca durante a reunião festiva, e depois atrairia muitas suspeitas.
De longe, o furão mais chamativo e simpático, era o canadense David Schneiderman, mais conhecido nos EUA como o 'Rei do Ácido', que havia conhecido Keith em Los Angeles, e agora se infiltrara no mundo dos Stones em Londres. Entre os amigos, comentava-se que um dos objetivos maiores de Schneiderman na Inglaterra, era o de 'batizar' os reservatórios de água potável inglesa com seu produto alucinógeno!
O tal encontro que começara no sábado por volta da meia-noite, com os caras apenas relaxando com maconha, haxixe, e outros afins, pegaria fogo no dia seguinte, com passeios na beira da praia, música a todo volume o dia inteiro (incluindo The Who e 'Blonde on Blonde' de Dylan), e viagens com o ácido lisérgico.
Outros visitantes que surgiram no domingo à tarde, incluíam o beatle George Harrison e sua esposa Pattie, além de seu assessor Tony Bramwell.
Após o passeio na praia, Marianne Faithfull, que na época iniciava relacionamento com Jagger, resolveu tomar um banho. Como ela havia esquecido de trazer outra muda de roupa, ela se enrolou em uma colcha toda forrada de pele. E desta maneira, vestida somente com a tal colcha - mas parecendo um casaco de pele - desceu para a sala para usufruir do restante da festa. Este incidente ficaria famoso, inclusive tendo sido criado um boato infame de que além de nua, Marianne também estava 'portando' uma barra de chocolate 'Mars' em uma parte íntima de seu corpo, barra esta que Mick estaria degustando!
O que ninguém no local sabia, era que a polícia havia sido avisada por jornalistas do diário 'News of the World', que estava rolando uma 'drug party' - ou festa a base de narcóticos - na mansão. O jornal queria assim vingar-se de Mick Jagger, que os processava por calúnia.
Coincidência ou não, Harrison e Pattie, saíram da casa pouco antes das 20.00 hrs, quando um batalhão policial, munido de um mandado de busca, invadiu pacificamente a mansão de Keef.
Moral da história: em uma revista completa na casa e nos hóspedes dela, acharam-se algumas substâncias proibidas.
Mick, tinha um frasco de benzedrina com 4 comprimidos esquecidos no bolso, desde uma viagem ao exterior onde eles eram permitidos e Robert Fraser, foi flagrado com uma pequena quantidade de heroína. Os dois, além de Keith que era o dono da casa, e, supostamente permitia o uso de drogas em sua residência, foram dias mais tarde indiciados e levados à juri. Schneiderman foi revistado, mas uma maleta que portava, não!
Todos, é claro, seriam julgados por um tribunal hiper conservador, que queria torná-los um exemplo para os jovens do Reino Unido.
Jagger, Richards e Robert Fraser foram condenados a prisão e multados.
Eles chegaram a ser fotografados algemados uns aos outros, com Jagger tentando forçar um sorriso, mas completamente apavorado.
Durante sua curta estadia vendo o sol nascer quadrado, Jagger compôs '2000 Light Years From Home' e 'We Love You', mostrando seu desespero e solidão.
Marianne Faithfull, não foi acusada no tribunal, mas foi citada como uma certa 'Madame X', que circulava praticamente nua pela festa, provavelmente sobre o efeito de hipnóticos. A imprensa só precisou somar 2 + 2 pra descobrir quem era a tal Madame X, e no dia seguinte fotos de Marianne, embora não citada abertamente como a Madame, estampavam a primeira página de vários diários ingleses.
A dúvida que ficou foi de quem os 'entregou' pro 'News of the World'.
Nick Kramer, mesmo agredido por seguranças dos Stones, dias depois, negou ser o dedo-duro. O 'Rei do Ácido' Schneiderman, (que portava sempre a tal maleta com todo tipo de substâncias proibidas), sumiu dois dias depois da festa, tendo deixado a Inglaterra apressadamente, com um de seus vários passaportes falsos. Keith, em sua biografia, diz ter certeza que foi seu motorista na época, chamado 'Patrick', quem os denunciou.
Após recorrer da sentença, Mick e Keith seriam soltos após alguns dias sob fiança (altíssima), e mais tarde venceriam um recurso em alta instância. Fraser, por portar uma droga pesada, pagou o pato e ficaria preso por alguns meses!
Um fato que ajudou muito a defesa de Jagger e Richards, foi o editorial do 'The Times', um dos jornais mais conceituados de toda a Inglaterra. Seu editor chamado William Rees-Mogg, apesar de também conservador, não achou justa a sentença de Jagger.
Ele escreveu o editorial 'Who Breaks a Butterfly on a Wheel'? (Quem Submete uma Borboleta à Roda do Suplício?), o título vindo de um verso do poema 'Epistle to Dr. Arbuthnot', de Alexander Pope, poeta do século XVIII.
Rees-Moog, discorreu no editorial, sobre a incoerência de uma pena exemplar para um delito pequeno, apenas porque os acusados eram famosos! A repercussão foi enorme!
Batalha ganha, os Stones seguiram em frente, mas a perseguição continuaria pelos anos seguintes. A vítima seguinte seria Brian Jones!
O poema de William Blake que abre os trabalhos do livro, serve de epitáfio para os problemas dos Stones:
O JARDIM DO AMOR
Deitei-me à margem do rio
Onde o amor dormia;
Cujo lamento frio
Pela relva gemia e gemia.
Para os campos e desertos rumei,
Onde cardos e desolação encontrei,
Que me contaram como ludibriados
Foram expulsos e à solidão relegados.
Segui para o Jardim do Amor;
E vi o que jamais avistara;
Uma Capela erguida no centro
Do gramado onde eu brincara.
Portões fechados encontrei,
"Não entreis", lia-se na entrada.
Então ao Jardim do Amor me voltei,
E às doces flores que ostentara.
Mas repleto de sepulturas o vi
Com lápides em vez de flores;
E padres de negro vagavam,
Sufocando com espinhos meus ardores.
quinta-feira, 21 de março de 2013
Como Tudo Começou!
O dia 22 de março de 1963, ficará para sempre gravado na história musical do planeta. Nesta data, Paul McCartney, Ringo Starr, John Lennon e George Harrison lançavam seu primeiro LP!
Os carinhas já haviam estreado em 1962 com dois singles: 'Love Me Do/P.S. I Love You' e 'Please Please Me/Ask Me Why', mas agora a coisa era prá valer!
Produzido em apenas um dia (11 de fevereiro), o álbum 'Please Please Me' foi gravado em meros dois canais, que era a 'alta tecnologia' dos estúdios EMI da época.
O produtor George Martin fez o possível para reproduzir o som deles como era ouvido ao vivo no 'Cavern Club'! Assim, apesar de sua pouca experiência em estúdio, os rapazes se sentiram à vontade, e a maioria da canções foi gravada em apenas um 'take'.
Martin, no início, procurava por um líder e um cantor principal para a banda. Ele ficou na dúvida entre John e Paul.
O destino se encarregou de mostrar a Martin, que os Beatles funcionavam melhor como conjunto! Apesar do vocal de Lennon prevalecer nos primeiros álbuns do grupo, o início arrasador do disco cabe a Paul McCartney, com o rock estonteante e inovador chamado 'I Saw Her Standing There'.
Ao comando de 'one, two, three, four...' de McCartney, até a o último acorde da guitarra de George em 'Twist and Shout', os Beatles começavam a mostrar aos ingleses, e depois ao mundo todo, como a música funcionaria a partir daquele momento.
McCartney, em sua formação musical, gostava de rock e de baladas, seus ídolos eram Elvis Presley, Buddy Holly e Little Richard. Seu vocal, quando se inspirava em Richard, era perfeito para rockões como a faixa de abertura. A harmonia vocal dos caras, que sobressai nessa canção, também sempre foi um ponto alto da banda. E estamos falando de 1963, quando eles nem haviam ouvido ainda os 'Beach Boys', que seriam outra grande inspiração para as harmonias.
Os Beatles queriam aproveitar seu material do 'Cavern' para este disco, então esta foi uma das poucas vezes que eles utilizariam seus singles já lançados para completar um álbum.
Temos então presente no LP, ás já citadas 'Love Me Do', a primeira música escolhida por eles para uma gravação, e 'P.S. I Love You', ambas com o vocal de Paul.
A balada mais adocicada de McCartney - que seria outra marca registrada da banda - foi a cover de 'A Taste of Honey', sucesso dos Beatles desde o tempo de Hamburgo.
O trabalho conjunto dos Beatles, exigia que todos cantassem ao menos uma música. Era assim nas apresentações e seria assim nos discos futuros.
Ringo Starr, era conhecido por ter uma voz 'maneira', apesar de não ter muito alcance vocal, e além disso ele era idolatrado em Liverpool, por entre outras coisas, sua técnica estranha de tocar bateria. Era necessário então que Ringo tivesse seu espaço como solista. A escolhida para ele foi 'Boys' do grupo feminino americano The Shireless, de quem a banda era fã.
Aqui faz-se necessário comentar a enorme influência da música americana na formação dos caras. Não apenas Elvis (que John e Paul adoravam), Carl Perkins e Chet Atkins (ídolos de George), mas principalmente a música negra. Coisas da gravadora Motown. Ray Charles e Stevie Wonder, os grupos femininos de rhythm & blues e soul, o próprio blues, e o country (Ringo era fã), tudo isso marcou muito os rapazes.
Harrison, no início da banda, queria se dedicar mais a seus solos e acompanhamentos de guitarra. Então John compôs especialmente para seu vocal a balada 'Do You Want to Know a Secret?', já neste tempo inspirada em Lewis Carrol. Outro ponto alto no começo da banda, era quando George fazia harmonia com Paul para os vocais de John, ou numa ocasião rara, quando ele mesmo acompanhou Lennon em 'Baby It's You', um grande momento do disco.
A participação de John Lennon neste primeiro trabalho, fez muita gente imaginar que ele seria o 'solista' do conjunto. Sua voz afiada, principalmente em 'Misery' (junto com Paul), na já citada 'Please Please Me', e, principalmente na cover de 'Anna (Go to Him)' e no final épico com 'Twist and Shout', - sua voz estava no limite, após horas gravando, mas ele se entregando de corpo e alma à musica, - ajudaram a fazer deste álbum uma das maiores estreias em LP de uma banda de rock.
Os Beatles eram ainda pouco conhecidos. Este seu primeiro álbum os tornariam famosos no Reino Unido. Isto era apenas o início. O melhor ainda estava por vir!
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